segunda-feira, 30 de abril de 2012

COMO ASSIM “A UTOPIA SUFOCA A EDUCAÇÃO DE QUALIDADE”?



Por D. Burato


A revista VEJA ataca o currículo escolar com argumentos preconceituosos, crucificando o ensino de disciplinas como Filosofia, Sociologia e Música por desviarem a atenção dos alunos das matérias realmente importantes (matemática, português e ciências). Leia a matéria na íntegra: http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/a-utopia-sufoca-a-educacao-de-qualidade “A Utopia Sufoca a Educação de Qualidade”. Num primeiro momento, o título do artigo do economista Gustavo Ioschpe, publicado na revista Veja em 11 de abril de 2012, deixa-nos temerosos acerca do seu conteúdo. Após a sua leitura, o temor dá lugar à revolta e a indignação. O discurso assumido pelo economista sobre a qualidade educacional do nosso país e o rumo que ela deveria tomar é fundamentalmente tecnicista e com citações preconceituosas, perceptíveis ao leitor mais atento.Para o autor, a escola se perde ao tentar cumprir tantos compromissos legais, fruto de um pensamento educacional “utópico”. Passagens como “a esperança vã de pensadores de que uma escola que mal consegue ensinar o básico resolva todos os problemas sociais e éticos do país”, e “esse desejo expansionista (em relação ao currículo escolar) faz bem ou mal ao nosso sistema educacional? Será um caso em que mirar no inatingível ajuda a ampliar o alcançável ou, pelo contrário, a sobrecarga faz com que a carroça se mova ainda mais devagar? Acredito que seja o último”, explicitam o uso do termo “utopia” como uma espécie de devaneio ou o paraíso pretendido pelos legisladores e pensadores da educação, estes últimos nomeados como “revolucionários de poltrona”. Para ele, a realidade sempre sobrepuja as intenções. Assim, a escola deve apenas cumprir com o seu papel de preparar os indivíduos para o mercado de trabalho (ou seja, deve ensinar exclusivamente matemática, português e ciências), não devendo perder tempo com discussões triviais como ética, cidadania e política.O seu discurso assume em muitos momentos uma postura preconceituosa. Relaciona indevidamente o fracasso escolar a quantidade inferior de aulas das disciplinas ditas “fundamentais”, e não a qualidade do ensino. A educação de qualidade (aquela que capacita o futuro trabalhador), por dividir o espaço e a atenção dos alunos com matérias irrelevantes (como filosofia e sociologia), paradoxalmente aumenta o abismo entre pobres e ricos, uma vez que os primeiros sempre estão em déficit educacional em relação aos últimos. Esse déficit educacional determinaria assim as condições sociais dos indivíduos. Sem foco e assumindo uma agenda extensa, a escola tenta “formar o cidadão virtuoso e o aluno de raciocínio afiado e com conhecimentos sólidos”. Ioschpe não visualiza a possibilidade de um sistema educacional que concilie cidadania e conhecimento, ignorando e desvalorizando a educação formadora do espírito critico acerca das contradições da dinâmica social que incidem bruscamente sobre os homens, proporcionando a mobilização dos indivíduos para a mudança do panorama atual. Essas sim influenciam o combate das desigualdades sociais. Só reclamam por seus direitos aqueles que são conscientes dos abusos sofridos.E por fim, não deixaremos de citar os argumentos mais sinuosos do seu discurso, altamente preconceituosos. Passagens como “É pouco provável que um aluno rico saia da 1ª série sem estar alfabetizado, enquanto é muito provável que o aluno pobre chegue ao 3º ano nessa condição. O aluno rico pode, portanto, se dar ao luxo de ter aula de música”, e “ É legítimo, embora estúpido, que a maioria dos brasileiros prefira uma educação que fracasse em ensinar a tabuada mas ensine bem a fazer um pagode”, falam por si só. São por essas e outras que devemos defender uma educação que contemple não somente a dimensão técnica, instrumental, mas também as dimensões política e humana, para que não sejamos ingênuos a ponto de sermos iludidos e influenciados por pessoas ou por veículos de comunicação mal intencionados.